Uma janela

Novembro 27, 2006

Madrid, Agosto 2006.

L.

Novembro 23, 2006

Foto de A., Madrid, Agosto de 2006

Novembro 22, 2006

Lisboa, Nov. de 2006

Não gosto desta fotografia. Desculpa-me, mas acho-a mesmo kitsch. O que eu gosto mesmo nela é o que não se vê: a travessia de Cacilhas para Belém, contigo. Tu, pelo contrário, logo que viste essa imagem ficaste apaixonada. Nesse rectângulo, como numa sinédoque, caçei o céu e o mar para ti. A minha fisga tecnológica agarrou ainda uma gaivota a entrar pelo lado direito como se ela ali fosse o único elemento a dizer o instante. A cidade, quase invisível, ao fundo, é como se fosse invulnerável ao tempo. Parece que nem só as cartas de amor são ridículas. No séc. XXI, já poucas cartas se escrevem, mas há coisas boas que perduram.  As palavras estão pela hora da morte. Em vez disso usamos imagens como palavras. Dedico-te esta foto.

Foto e texto de A.

Novembro 22, 2006

Foto de A., Lisboa, Novembro de 2006

Janelas

Novembro 21, 2006

Gosto de janelas, altas e baixas, coloridas e descoloridas, desengonçadas e majestosas, no fundo, gosto das janelas nos seus vários géneros. Gosto da objectualidade do objecto-janela e da subjectividade do subjectivo-janela. De tantos objectos do mundo, tenho uma eleição especial pelas janelas. Na minha vida, não me aconteceu quando o meu pai me pegou no colo e levou-me até a janela e me disse é este o mundo. Não podia bem ser assim. (Muitas luzes pelo caminho e não sei por que fio eu sou levada). Sei que todas às vezes que “errei” para uma nova casa, semprei tomei como primeiro passo conhecer a janela do meu quarto. Deixa-me ver o que vejo daqui, deste canto, e deste lado, agora do esquerdo. As janelas de todos os quartos em que já vivi, lembro-me uma especialmente, que tinha mesmo à minha frente um limoeiro e se ouvia muito bem o vento. Como objecto, que abre para fora e para dentro, de mim mesma também, a janela também pode ser o pensamento. Espera-se pela janela. Será que a esperança tem lugar numa janela?



de L’ Eclipsse, Antonioni.

Da janela, como o melhor enquadramento para ver os crepúsculos, estes corredores que têm um papel colorido. Da janela, como o melhor lugar para receber a luz.Da janela para ver o mundo quieto ou da janela para começar um filme. Quantos? Marguerite Duras começou um por uma janela. Truffaut era obcecado por elas, através delas, comunicando por elas. Hitchcock filmou a melhor aula sobre perspectiva em Janela Indiscreta. Qual é o filme de western em que não se vê um cowboy mirando por uma janela com uma arma em punho? Em quantos filmes de noir vê-se todo o mistério pousado entre um entreolhar numa persiana e uma sombra que passa firme pelas paredes? Como é que se esquecem as janelas de Tarkvoksy, as do Espelho e as da Nostalghia, se elas são autênticos quadros?


(c) Raymond Depardon.

A janela como fuga, como entrada de ar e de luz, como ideia de vazio e de nada, como ângulo de visão. Como em Tabacaria, Fernando Pessoa começa Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é.As cidades como janelas em brasas com cortinas/ puras, como num lugar de Herberto Hélder. As janelas altas de Larkin :Rather than words comes the thought of high windows:/The sun-comprehending glass,/And beyond it, the deep blue air, that shows /Nothing, and is nowhere, and is endless. Ou como diz Rilke :Tu me proposes, fenêtre étrange, d’attendre. [...]Qui attendrais-je?.E tantas janelas abertas em tantas palavras.


(c)Vermeer, Soldier and a Laughing Girl.

Em quantas manhãs Vermeer doseiou as suas janelas, bebendo a luz necessária para os seus quadros? Como é que se pode sentir tanto ruído por uma simples tecla, através de uma janela? . A porta-janela ou a janela-porta de Matisse?. E uma mulher que espera numa janela de Caspar David Friedrich.

Tom Waits canta : I climb through the window and down the street e sonha-se com as janelas. A janela como encontro com a noite. A janela que erra, que fragmenta pedaços de ruas, de cidades,de rostos, pelos os olhos dos viajantes. As janelas dos aviões, dos comboios, dos autocarros, dos barcos. Como Adriana Calcanhoto canta, pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela,(quem é ela, quem é ela?), eu vejo tudo enquadrado, remoto controle.

As janelas como lugares de solidão, rostos apagados pela idade, pelo meio da manhã e pelo meio da tarde, espreitando para fora, em casas tristes.

Por fim e deixando muitas janelas em aberto, da minha janela vejo um pátio de um colégio. De lá, vêem-se miúdos a correr, a jogar à bola, e a fazerem círculos de mãos dadas.Também vejo mais perto, uma oliveira que, de vez em quando, é visitada por um melro. E por final, vejo, muitas vezes,um gato de olhos verdes que atravessa o muro muito devagar.

Errâncias de L.

As Portas (esboço)

Novembro 20, 2006

Madrid, Agosto de 2006 

Tenho um fascínio por portas. Porque é que um objecto e não outro lança sobre nós um feitiço? Às vezes, fico a pensar nisso, deste meu fetiche… Seria ingénuo da minha parte, pensar que haveria somente uma razão: a vida nunca me deu uma razão mas um poliedro delas, algumas que a própria desconhece, tal ainda é o escuro. Prefiro a compreensão à explicação. Acho que é mais honesto. O porquê tem a mania de ficar pelo singular “porquê” e não pelo plural “porquês”. É bem mais estimulante o “como”.

O meu fetiche por portas serviria para uma tese de doutoramento como um atacador, a ponta dum lápis ou outra coisa qualquer. As minhas portas não são a asséptica e cinzenta porta de prédio ou de apartamento, de madeira a fingir. Normalmente gosto muito de portas (ah, e janelas também) que fogem à escala normal, apropriada a uma coisa dessas. Consolo-me com portas medievais mas não é por causa dum potencial arco, não: são a pequenez e a estreiteza, escalas de inadaptação ao quotidiano dos corpos.

Em Agosto, vi muitas em Madrid. Recentemente, em Lisboa, detive-me sobre outras. Podíamos fazer muitas interpretações: desde a “porta”, do ponto de vista sexual, até à “porta” dos historiadores de religiões, como símbolo de passagem e iniciação. Estou a lembrar-me da sucessao de portas em Citizen Kane, num palácio interminável. A porta sela a nossa intimidade, mas é também um obstáculo e pode ser, entreaberta, uma tentação para espreitar e entrar. Nas portas ainda há as voyeurísticas fechaduras. E as portas que não fecham, são para nós um desassossego. Lembro-me da porta dum cofre sempre encerrada. No dia em que se abriu, além de não ter nada em especial no seu interior (só papelada, nada de moedas de ouro), ainda encontrei fotografias de mortos de família. Quando sonho com um assalto a minha casa, estou sempre do lado de fora e vou logo logo a correr tentar fechar a porta. Quando me ponho a pensar, a porta é, para mim, o fantasma do medo. Deixo-vos com a porta magenta dum bar de Madrid chamado “La Querencia”, que em português significa, isso mesmo, “A Querença”: incrível como o nome e a cor combinam muito bem. Nada mais adequado ao momento em que a caçei.

Texto e foto de A.

O Olho

Novembro 18, 2006

Foto de A., Lisboa, Novembro de 2006

Obras a brincar

Novembro 18, 2006

Foto de A., Lisboa, Novembro de 2006

Cidade Antiga (esboço)

Novembro 17, 2006

 

Lisboa, Novembro de 2006 

 

Na parede duma cidade antiga podemos ler, como num tecido de muitos fios, cruzamentos de povos e devoções, que um dia acabaram. É esse o caso do altar romano, ali mesmo ao lado da Sé de Lisboa, enquadrado por uma tripa de águas do século XX. Como se esse exemplo bastasse para dizer: “Passaram outros por este lugar. Às vezes foi árduo aceitá-los, quando eram bandidos que vinham com armas, mas depois soubemos viver uns com os outros e isso foi belo. As ruas foram refrescadas por sons duma língua nova, estendemos comida a deuses estranhos e os engenheiros mediram o lugar das pedras para uma nova fundação.”

 

 

 Texto e foto de A.

uma noite

Novembro 15, 2006

Bar la piola

Novembro 15, 2006

Já se falou (e bastante) sobre o nosso deslumbre à volta dos restaurantes, bares e cafés de Madrid. E “bar la piola” é um dos que não faltam na nossa lista de favoritos. Quandos o vimos pela primeira vez mais parecia um plano de um dos filmes de Wim Wenders, já que à janela estava uma das suas personagens. Não tivemos dúvidas.

foto de A.

Picasso

Novembro 15, 2006

Picasso, La Vida, 1903.

A comemoração dos 125 anos do nascimento de Pablo Picasso e os 25 anos da chegada à Espanha da Guernica foram , sem dúvida, óptimos marcos, quando pensámos em ir até Madrid.

A vida, de Picasso, é um dos meus quadros. Descobri-o num selo francês, como descobri tantos outros, como os do Chagall. Não sei muito bem como dizer o quanto gosto deste quadro e quando o vi na sala do Museu do Prado, ainda a minha admiração por ele foi maior.  Num dos guias antológicos, conta-se sobre este quadro que se trata de uma obra culminante do período azul, 1901-1904, em que Picasso desenvolveu o seu primeiro estilo pessoal, marcado por esta cor, simbolica e psicologicamente associado à tristeza e anuncia também o seu interesse por El Greco e pela arte dos fins do séc. XIX.

Nunca me vou esquecer de ter visto este quadro, ao vivo.