As Portas (esboço)
Novembro 20, 2006

Madrid, Agosto de 2006
Tenho um fascínio por portas. Porque é que um objecto e não outro lança sobre nós um feitiço? Às vezes, fico a pensar nisso, deste meu fetiche… Seria ingénuo da minha parte, pensar que haveria somente uma razão: a vida nunca me deu uma razão mas um poliedro delas, algumas que a própria desconhece, tal ainda é o escuro. Prefiro a compreensão à explicação. Acho que é mais honesto. O porquê tem a mania de ficar pelo singular “porquê” e não pelo plural “porquês”. É bem mais estimulante o “como”.
O meu fetiche por portas serviria para uma tese de doutoramento como um atacador, a ponta dum lápis ou outra coisa qualquer. As minhas portas não são a asséptica e cinzenta porta de prédio ou de apartamento, de madeira a fingir. Normalmente gosto muito de portas (ah, e janelas também) que fogem à escala normal, apropriada a uma coisa dessas. Consolo-me com portas medievais mas não é por causa dum potencial arco, não: são a pequenez e a estreiteza, escalas de inadaptação ao quotidiano dos corpos.
Em Agosto, vi muitas em Madrid. Recentemente, em Lisboa, detive-me sobre outras. Podíamos fazer muitas interpretações: desde a “porta”, do ponto de vista sexual, até à “porta” dos historiadores de religiões, como símbolo de passagem e iniciação. Estou a lembrar-me da sucessao de portas em Citizen Kane, num palácio interminável. A porta sela a nossa intimidade, mas é também um obstáculo e pode ser, entreaberta, uma tentação para espreitar e entrar. Nas portas ainda há as voyeurísticas fechaduras. E as portas que não fecham, são para nós um desassossego. Lembro-me da porta dum cofre sempre encerrada. No dia em que se abriu, além de não ter nada em especial no seu interior (só papelada, nada de moedas de ouro), ainda encontrei fotografias de mortos de família. Quando sonho com um assalto a minha casa, estou sempre do lado de fora e vou logo logo a correr tentar fechar a porta. Quando me ponho a pensar, a porta é, para mim, o fantasma do medo. Deixo-vos com a porta magenta dum bar de Madrid chamado “La Querencia”, que em português significa, isso mesmo, “A Querença”: incrível como o nome e a cor combinam muito bem. Nada mais adequado ao momento em que a caçei.
Texto e foto de A.
Novembro 21, 2006 at 1:44 am
[...] tu falas de portas. [...]
Novembro 22, 2006 at 12:18 pm
A porta… fecha a porta.
Que vais fazer da vida que te sobrou?
São restos que já não podes aproveitar para um projecto, são aparas, o melhor é deitá-las fora.
Saíste de ti, fizeste o teu número, agora é dizeres ao funcionário que baixe o pano.
Mete-te em casa, fecha a porta, apesar da inquietação disponível de ir abrir a quem bate.
Não estou cá - diz, - Não há cá ninguém.
Felizes os que dizem…
Que é que tens para dizer a quem entrar?
Olha apenas, há tanto que não dizer.
Há tanto apenas que ser. Falar de ti?
Dizer o que se é, é desdobrarmo-nos nesse dizer, e perdemo-nos sempre, algures, nesse desdobramo-nos.
Não te desdobres, dobra-te apenas.
Retorna a ti o que de ti for.
Sê avaro de ti, não te esbanjes na voz que vem da boca dos outros e pode cheirar mal, que há por aí muitos dentes mal lavados.
Que vais fazer da vida que te sobra?
Se existires apenas, não tem sentido perguntá-lo.
Existe, existe.
Desliga o telefone.
E se baterem à porta, não abras.
Diz apenas que já não são horas de bater…
Vergílio Ferreira
Abril 9, 2007 at 12:36 pm
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