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Março 2, 2007

Man Ray, Rayograph. 1922.
O olhar escreve, a caneta vê
Março 2, 2007
Num pequeno texto, Paisagens Urbanas, que é, em suma, uma sequência de impressões de viagem, Walter Benjamin escreve isto, que só na aparência é paradoxal: “Como é difícil encontrar palavras para o que se tem diante dos olhos. Mas quando elas vêm, embatem na realidade com pequenas pancadas até gravarem nela a imagem, como numa bandeja de cobre”; e acrescenta: “só depois de eu ter encontrado essas palavras é que a imagemse libertou do vivido demasiado ofuscante, com amolgadelas fortes e sombras profundas”. Por outras palavras, só vemos realmente uma coisa quando encontrámos as palavras para a dizer. [...] O olhar escreve, ou melhor: a caneta vê. Só vejo literalmente o céu quando, para o descrever, encontrei algo diferente de: é de azul, ou cinzento. Homero faz-nos ver o már báquico, sangrento, escuro, nauseabundo, o mar que é viveiro de monstros, reflectindo sóis poentes, etc, quando o descreve como oinops, cor de vinho.
Olivier Rolin, O meu chapéu cinzento, Edições Asa, pág16/17.
Do paço ducal, o céu
Março 2, 2007

Na segunda semana,numa semana de lua cheia, fomos até à cidade do Paço Ducal. Maravilhei-me logo com os vitrais da capela, a puxar muito para uma época antiga francesa. Dos contadores hispanos-árabes, dos espelhos barrocos, das porcelanas da companhia das índias, das faianças portuguesas, das tapeçarias francesas,ficámos assim impressionados. Para além das riquezas carregadas de histórias, os tectos de madeiras faziam lembrar grandes quilhas de naus. No claustro deslumbra-se um silêncio maior ainda. Entre chaminés, e a história que não se contou, fotografei este céu de fim do dia. É de uma serenidade que até inquieta. Para ti, A.c.
texto e foto de L.