Num pequeno texto, Paisagens Urbanas, que é, em suma, uma sequência de impressões de viagem, Walter Benjamin escreve isto, que só na aparência é paradoxal: “Como é difícil encontrar palavras para o que se tem diante dos olhos. Mas quando elas vêm, embatem na realidade com pequenas pancadas até gravarem nela a imagem, como numa bandeja de cobre”; e acrescenta: “só depois de eu ter encontrado essas palavras é que a imagemse libertou do vivido demasiado ofuscante, com amolgadelas fortes e sombras profundas”. Por outras palavras, só vemos realmente uma coisa quando encontrámos as palavras para a dizer. [...] O olhar escreve, ou melhor: a caneta vê. Só vejo literalmente o céu quando, para o descrever, encontrei algo diferente de: é de azul, ou cinzento. Homero faz-nos ver o már báquico, sangrento, escuro, nauseabundo, o mar que é viveiro de monstros, reflectindo sóis poentes, etc, quando o descreve como oinops, cor de vinho.

Olivier Rolin, O meu chapéu cinzento, Edições Asa, pág16/17.

One Response to “O olhar escreve, a caneta vê”


  1. [...] paisagens urbanas. [...]


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